Certa ideia de viagem
Atualizado: 23 de set.
por Thibaud Perdrix
Em 2009, eu navegava de veleiro pelo arquipélago de San Blas com dois amigos. Um deles morava em Cartagena. A Colômbia me rondava a cabeça por uma razão bastante simples: havia muito ainda por descobrir.
O país mal começava a se abrir ao turismo. No mapa do Ministério das Relações Exteriores francês, grande parte do território ainda aparecia em vermelho — viagem formalmente desaconselhada. A Colômbia era um destino distante, de difícil acesso, conhecido sobretudo pelo que havia vivido.
Numa noite, no barco, meu amigo me falou de uma agência que procurava guias para acompanhar seus primeiros viajantes.
Anotei o nome.
Algumas semanas depois, estava contratado.
Foi assim que a Colômbia entrou na minha vida.
Me instalei em Cartagena e comecei a percorrer o país. Aprendi sua história, sua geopolítica complexa, seus povos pré-colombianos e as formas como habitaram o território. Fui mergulhando na fauna, na flora, nas culturas, na culinária.

Adorava compartilhar tudo isso.
Mas também aprendi a cuidar dos viajantes. A perceber o que precisavam, a encontrar o ritmo certo, a ficar atento aos detalhes que podiam fazer ou desfazer um dia.
Foi então que conheci María Julia. Ela se tornaria minha esposa, mãe das nossas três filhas e, anos depois, minha sócia no Tempo.
Ao longo de tudo isso, outros laços foram se formando.
Sou músico. Toco guitarra, canto, faço percussão. Isso me aproximou naturalmente dos músicos colombianos — cantores de vallenato, vozes do bullerengue, pianistas de salsa.
Minha mãe é escultora. Cresci no mundo das artes e a Colômbia foi me apresentando a mais gente assim: pintores, designers. As reportagens que fiz me abriram portas no jornalismo — repórteres, fotógrafos, correspondentes.
Quanto mais tempo eu passava por lá, mais queria entender do que a Colômbia é feita. Sua história, suas contradições, suas culturas afrodescendentes e indígenas, suas heranças espanholas, libanesas e sírias, sua música, sua culinária, seus artistas.
Esses encontros viraram amizades. Essas amizades formaram uma rede.
Um músico, um chef, um coreógrafo, um designer, um artista, um fotógrafo, um jornalista. Pessoas que carregam, cada uma, um pedaço dessa cultura colombiana viva — às vezes sem nem perceber.
Foi com elas que criamos o Tempo.
Quando saímos em busca de novas experiências, temos uma só bússola: a beleza e a verdade da Colômbia.
Um chef que há anos trabalha os ingredientes do seu território. Um músico que conhece a história por trás de um ritmo. Um artista cuja obra guarda um pedaço da Colômbia dentro dela.
Nosso trabalho é esse: abrir essas portas e compartilhar essas conexões.
Mas uma viagem nunca se resume ao que se vê.
Ela chega, muitas vezes, num momento importante da vida — um casamento, um aniversário marcante, uma promoção, uma aposentadoria, uma busca por origens. Muda-se de década, de profissão, de ritmo. A viagem pode acompanhar essas viradas, a gente queira ou não.
Nossos viajantes nos confiam muito mais do que a organização da estadia.
Nos confiam o tempo deles — e, com ele, um pedaço das suas memórias.
Cuidar disso virou a coisa mais importante do que fazemos.
Acredito também que viajar é um dos melhores exercícios para aprender — ou reaprender — a se surpreender de verdade.
Uma noite junto a uma comunidade arhuaca na Sierra Nevada.
O silêncio de uma igreja em Barichara ou em Cartagena.
O mar de sete cores de Providencia.
Um amanhecer sobre os páramos do Quindío.

Longe da rotina, a gente enxerga diferente. Ouve com mais atenção. Experimenta os sabores de outro jeito. Abre espaço para o que está à volta.
Foi a Colômbia que me ensinou a olhar assim.
O Tempo nasceu do desejo de compartilhar esse olhar — de abrir essas portas, de colocar nossa rede a serviço de quem nos confia a sua viagem, e de cuidar de verdade de quem vem.
Não temos uma definição fechada do que é uma viagem.
Só uma convicção: buscar a beleza e a verdade da Colômbia, e dar aos nossos viajantes a chance de encontrar, eles também, o próprio jeito de ver esse país.





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